Opinião: Palmeiras tem um problema que começa antes de Flaco López receber a bola
- 25/10/2026
Há uma injustiça recorrente no futebol: quando o atacante não marca, quase sempre é ele quem precisa explicar o problema. O centroavante perde uma oportunidade, e a discussão começa pelo seu pé. Se passa alguns jogos sem balançar a rede, logo aparece alguém disposto a questionar sua titularidade, como se a bola chegasse à área por geração espontânea. No Palmeiras, considero que esse raciocínio merece ser invertido. Antes de perguntar o que Flaco López ou Vitor Roque fazem com a bola, precisamos examinar o que a equipe faz para entregá-la a eles.
Não estou propondo absolver atacantes de suas responsabilidades. Centroavante que desperdiça uma chance clara precisa responder por isso. Mas existe uma diferença entre errar uma finalização e passar boa parte da partida tentando encontrar uma situação em que seja possível finalizar. É justamente nessa distinção que o debate sobre o ataque palmeirense ganha importância.
O time pode acumular posse, cruzamentos e finalizações sem necessariamente oferecer ao seu homem mais adiantado as condições ideais de trabalho. Volume ofensivo e abastecimento de qualidade não são sinônimos. O jogo contra o Bahia, em 8 de outubro, ajuda a entender a questão. Flaco López marcou o gol da vitória por 1 a 0 após uma jogada de bola parada: Andreas Pereira cobrou o escanteio, Alexander Barboza desviou e o argentino apareceu para completar de cabeça. Foi um lance que valorizou a ocupação da área e a capacidade de antecipação do centroavante.
No Maracanã, diante do Fluminense, a resposta apareceu de outra maneira. Na vitória por 2 a 1 pela semifinal da Libertadores, Flaco recebeu o passe de Piquerez e concluiu um contra-ataque aos 44 minutos do primeiro tempo. O Palestra tinha menos posse, mas encontrou espaço para atacar em velocidade. A jogada evidencia a importância de reconhecer o espaço, acelerar no momento certo e executar o passe com a precisão exigida. Naquela noite, o caminho até Flaco foi tão importante quanto a finalização que encerrou o lance.
O que é preciso observar na construção ofensiva do Palestra
É por isso que considero insuficiente avaliar o ataque palmeirense apenas pela quantidade de gols de seus homens de frente. Precisamos observar de onde vêm as bolas, quantas chegam à área em condições de conclusão e quais jogadores participam da construção. O que importa, portanto, é a qualidade da oportunidade criada, não apenas a quantidade de vezes que a bola chega à área. Os alas também entram nessa conta. No sistema de três zagueiros utilizado por Abel Ferreira, Giay e Piquerez precisam oferecer amplitude, mas sua contribuição não termina quando alcançam o corredor lateral.
É preciso avaliar se chegam à linha de fundo em condições de cruzar, se encontram companheiros entrando na área e se conseguem participar das combinações por dentro. O gol de Flaco contra o Fluminense, por exemplo, nasceu de uma transição em que Piquerez encontrou o atacante em movimento. Já contra o Bragantino, em 24 de outubro, Giay marcou após receber assistência de Flaco, que havia entrado no segundo tempo. A relação entre os dois lances é reveladora: o abastecimento não precisa seguir sempre a mesma direção, e o centroavante pode ser tanto o destino quanto o ponto de apoio da jogada.

A vitória por 2 a 0 sobre o Bragantino oferece outro dado relevante. O Palmeiras registrou 24 finalizações e 43 toques na área adversária, segundo o FotMob. O dado serve como ponto de partida para a investigação, não como sentença. O comportamento ofensivo varia conforme os espaços disponíveis, a postura do adversário e as condições em que a equipe consegue chegar à área.
O peso de Flaco e do Tigrinho no debate do Palmeiras
Também não colocaria Flaco López e Vitor Roque em lados opostos desse debate. Os dois oferecem soluções diferentes, e essa diferença deveria ampliar as possibilidades do Palestra. Flaco pode sustentar a referência e atacar a região de finalização. Vitor tem características que favorecem a aceleração, a ruptura entre os defensores e a exploração dos espaços nas costas da última linha.
Quando atuam juntos, essas funções podem se complementar. Para isso, porém, os meias precisam reconhecer os movimentos, os alas devem escolher melhor o momento de avançar e a equipe precisa alternar passes de apoio com bolas em profundidade. Não adianta pedir que um jogador ataque o espaço se a bola chega quando esse espaço já desapareceu. Na minha avaliação, a SEP precisa ser julgada pela coerência entre a maneira como constrói os ataques e as características dos jogadores que coloca na frente.
O que importa é a assertividade do coletivo
Se Flaco recebe de costas, cercado por defensores, e precisa resolver sozinho uma jogada mal construída, a cobrança não pode terminar nele. Se Vitor ataca a profundidade repetidamente e não encontra passes capazes de aproveitar sua velocidade, também há uma questão coletiva. Em contrapartida, se os dois recebem oportunidades claras e não as convertem, a responsabilidade individual precisa aparecer na análise.
Um bom atacante precisa finalizar, mas uma equipe bem organizada deve criar condições para que ele finalize mais vezes, em melhores posições e de acordo com suas características. O Verdão já demonstrou que consegue encontrar Flaco em transições, utilizar a área em bolas paradas e envolver o centroavante na construção de jogadas. O próximo passo é descobrir com que frequência consegue reproduzir essas soluções e por que elas desaparecem em determinados momentos. Eu começaria a investigação por aí. Afinal, antes de cobrar a assinatura do homem que termina a frase, convém verificar se o restante do time conseguiu escrevê-la.
























